Carlos Daniel
        O Melhor dos Jogos
        Carlos Daniel

        Românticos e Pragmáticos

        2021/05/21
        E1
        Este espaço, do jornalista Carlos Daniel, pretende ser de abordagem e reflexão sobre o futebol no que o jogo tem de melhor. Quinzenalmente, uma equipa será objeto de análise, com notas concretas que acrescentam atualidade.

        É uma daquelas ideias feitas do futebol português: na segunda liga triunfa-se com jogadores maduros, um ponta de lança estilo armário e mais uns quantos atletas com credenciais para duelos sucessivos, além da aposta inevitável no “pragmatismo”, eufemismo repetido para o que em linguagem simples não passa de “jogar à defesa”, no máximo “em contra-ataque”, ou com “aposta nas transições” se pretendermos modernidade. Só que não, felizmente. Numa época em que na Liga principal ninguém jogou propriamente bem e a maioria jogou efetivamente mal, não deixa de ser refrescante anotar que estão no topo da tabela as duas equipas que, claramente, melhor futebol praticaram: Estoril (já com ascensão garantida) e Vizela. E conduzidas ambas por treinadores estreantes numa prova em que tantos valorizam o “conhecer bem o campeonato”. Mais que identificar balneários pelo cheiro, relvados pelo tamanho e bancadas pela iluminação, tanto Bruno Pinheiro como Álvaro Pacheco definiram bem o caminho por onde seguir. Apostaram no risco de um jogar positivo, de iniciativa e foi assim que ganharam. E, para o quadro ser completo, fizeram crescer quase todos os jogadores em que apostaram, alguns de talento indiscutível, como Miguel Crespo, Zé Valente ou André Franco no Estoril, mais Samu, Guzzo e Kiko Bondoso no Vizela. Juntar o melhor jogo a resultados e à valorização de atletas, eis o pragmatismo verdadeiro. Por isso gosto tanto que triunfem os românticos.

        Fernando Santos pode ser o que quiser no próximo Europeu, imagino-o até na tentação de ser romântico e pragmático à vez, seja pela diferença entre o que vão exigir a Hungria, no primeiro jogo, ou a Alemanha e a França, nos seguintes, seja porque o selecionador tem, efetivamente, jogadores de perfil diverso como nunca teve, o que se reforçou com a possibilidade de chamar 26 homens. Os centrais são todos contundentes (além de maduros) e os laterais de recorte ofensivo (embora experimentados), mas daí para a frente não falta nada: homens de combate puro, como Palhinha e Danilo, gente que conjuga o físico com o passe – Sérgio Oliveira e William – ou que coloca o passe antes do físico - Moutinho e Ruben Neves – e o puro transportador de bola que é Renato Sanches. A seguir entra-se na zona da criatividade, que é onde emergem Bruno Fernandes, Bernardo Silva e João Félix e se acrescenta a novidade Pedro Gonçalves, com suplemento de aceleração garantida nas pernas de Diogo Jota, Gonçalo Guedes e Rafa. Por fim, a capacidade goleadora de André Silva e Cristiano Ronaldo, sobretudo deste, que ainda pode ser o topo do bolo.

        Lembro-me de seleções portuguesas de qualidade idêntica, mas nunca como agora sobram soluções de fazer inveja a um canivete suíço. Pessoalmente, e mesmo com tanta fartura, abdicaria de um de tantos médios puros para ter outro criativo, que desse pausa e critério e soubesse viajar entre as alas e o centro, como só vislumbro Bernardo Silva. Mas este grupo de eleitos respeita a lógica dominante de um futebol português em que se duvida mais do talento que da força, da criatividade que da velocidade, por isso se discute João Mário e não Palhinha, e dificilmente se escolhe Pizzi antes de Renato Sanches ou Rafa. Na dúvida, talvez o pragmatismo tenha levado vantagem nas escolhas, mas no todo não faltam razões, umas 26, que legitimam todos os sonhos, até os mais românticos.

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