Costuma-se dizer, pelo menos em Portugal, onde o futebol é “sui generis” quanto baste, que as diversas equipas que disputam (é apenas uma forma de dizer) o campeonato nacional da primeira divisão, disputam dentro dele vários campeonatos em simultâneo, desde as que lutam para o título, às que disputam o acesso às provas europeias, passando pelas que têm como objectivo uma classificação tranquila a meio da tabela e pelas que lutam em aflição permanente para não descerem de divisão.
São, pois, vários campeonatos dentro do que em teoria é apenas um.
Afastada que está a hipótese de, em Portugal aparecer um Leicester, um Desportivo da Corunha, um Nápoles, um Estugarda, um Auxerre, que em tempos diferentes e por diferentes razões conseguiram quebrar a lógica dos respectivos campeonatos e sagrarem-se campeões em detrimento dos habituais favoritos.
Em Portugal, tal não é hoje possível, porque o nosso campeonato está montado, dentro e especialmente fora dos relvados, para ser ganho sempre pelos mesmos, sendo que esses mesmos são cada vez menos, até ao dia em que seja apenas um, para enorme deleite do “sistema”, altura em que terá o seu objectivo plenamente realizado.
Já sei que houve Belenenses e Boavista a ganharem cada um o seu solitário título, mas há que dizer que o Belenenses o ganhou em tempos remotos e numa época em que tinha uma grande equipa, enquanto o triunfo do Boavista foi num tempo em que jogava de igual para igual, fora do relvado,com os tradicionais candidatos, enquanto, no relvado propriamente dito, jogava como lhe apetecia, com os adversários a terem canelas até ao pescoço!
Fora essas duas excepções, e importa dizer que o Boavista não fez nada que outros não tenham feito e continuem a fazer, a verdade é que houve outras equipas que andaram lá perto (Académica, os dois Vitória, o Braga), mas nunca conseguiram lá chegar porque não os deixaram competir com as mesmas armas dos clubes que vieram a sagrar-se campeões (por acaso sempre o mesmo...), que com eles lutaram pelo título nessas épocas.
Este ano, uma vez mais, será assim.
Pese embora a crescente indignação dos adeptos de quase todos os clubes (só na última jornada sete clubes foram multados por os seus adeptos nos respectivos jogos terem insultado... a Liga) face a um campeonato sem verdade desportiva, face aos sucessivos escândalos protagonizados por árbitros e VAR sempre a distorcerem a verdade a favor de quem lhes interessa, com uma imensa anomalia a que poucos dão a devida atenção de haver um clube que ganha todos os jogos de qualquer maneira e fez uma volta completa do campeonato só com triunfos(!!!), com vários deles a merecerem repartição dos méritos com árbitros e VAR, constatando-se que a cartilha e os cartilheiros têm cada vez mais preponderância na tentativa de camuflar o escândalo, a verdade é que o campeonato lá vai andando com vencedor há muito anunciado, por maior que seja a indignação daqueles que não se conformam em ter uma prova que só tem comparação com os campeonatos da Roménia no tempo do ditador Ceausescu.
Vencedor anunciado que não campeão, porque para se ser campeão tem que se ter outros méritos e as provas terem outra dignidade.
Resta assim olhar para os outros campeonatos, os tais que existem dentro do campeonato supostamente único, e constatar que, com excepção do Porto, que estará na Liga dos Campeões da próxima temporada, todos os restantes campeonatos ainda têm muitas dúvidas para resolver.
No que concerne ao apuramento para as competições europeias, acredito que Braga, Sporting, Vitória Sport Clube, Famalicão e Rio Ave serão os candidatos mais fortes, salvo surpresa que não é nada provável.
No campeonato da tranquilidade há vários concorrentes bem posicionados para fazerem uma segunda volta sem especiais dores de cabeça.
Boavista, Vitória Futebol Clube, Tondela, Santa Clara, Gil Vicente e Moreirense, a manterem o ritmo que vêm evidenciando, não terão problemas de maior e poderão ir pensando em marcar lugar no campeonato da próxima época.
E depois, as aflições.
Desde um Aves em muito má posição, mas a evidenciar algumas melhorias, a um Portimonense em crise prolongada e que me parece neste momento o maior candidato à descida, passando por um Belenenses sem adeptos e sem estádio e que é o melhor retrato da ligeireza com que se constituíram as SAD neste país, por um Paços de Ferreira que ora dá um passo em frente ora dá um passo atrás e por um Marítimo que tarda em acertar o passo e por isso se vê envolvido em apertos a que não está habituado, todas as hipóteses são possíveis quanto aos dois a que sairá a fava da despromoção.
O panorama é este.
Mas, estando em Portugal, onde a verdade desportiva é uma miragem e onde tudo pode acontecer face aos múltiplos e diversificados manejos de bastidores, é perfeitamente crível que este panorama se altere num destes vários campeonatos consoante a força, a influência e os “padrinhos” que decidam nele intervir em favor deste ou daquele clube seu “protegido”.
Veremos o que a segunda volta reserva aos dezassete clubes que disputam vários campeonatos dentro de um campeonato.
Lá para Maio saberemos.
P.S. Dirão os mais atentos que, na análise deste campeonato “sui generis”, falta um clube.
Não falta.
Está é a mais!