Diogo Leite Ribeiro
        Diogo Leite Ribeiro
        Do Castelo à Conquista
        Diogo Leite Ribeiro

        O Comboio Gil

        2025/12/15
        E3
        “Do Castelo à Conquista” liga a essência histórica do Vitória ao espírito combativo da cidade que o viu nascer – Guimarães. Esta coluna olha para o Vitória como expressão da cidade/região que nasceu para vencer. Com análise, emoção e ambição, exploram-se os desafios que se levantam ao Rei no seu permanente caminho para novas CONQUISTAS.

        Em termos históricos, temos de ir à cidade húngara de Kocs, no século XVI, onde começaram a ser produzidas as mais cobiçadas carruagens com suspensão de molas de aço. Conhecidas como Kocsi Szekér, estas carruagens deram origem, na língua inglesa, ao termo coach, sinónimo de carruagem. A metáfora ficou.

        Hoje, em inglês, coach designa quem treina, orienta e lidera uma equipa ou um grupo de atletas. Tal como a carruagem, o treinador é a força propulsora: puxa, conduz, define o rumo. É cavalo, carruagem e, muitas vezes, comboio.

        Num cenário de trabalho coletivo, onde o objetivo final tende a ser reduzido a um resultado, o verdadeiro líder distingue-se não apenas pelas competências técnicas, mas sobretudo pela capacidade de conduzir a equipa, pela palavra e pelo exemplo, até ao sucesso.

        No desporto, é frequente fazer-se tudo aparentemente igual e obter resultados diametralmente opostos. Daí as máximas tão repetidas quanto verdadeiras: «nem sempre quando se ganha está tudo bem» ou «nem sempre quando se perde está tudo mal». E quando os primeiros triunfos são atribuídos à sorte, recorde-se que «a sorte dá muito trabalho».

        Por isso, os treinadores responsáveis pela última etapa formativa dos jovens talentos — os maiores ativos de qualquer clube — devem ser encarados pelas direções como um investimento estratégico e não boia de salvação. Um investimento que não pode depender apenas do resultado ao final da jornada. Mais importante do que um 0-0 ou um 3-3 é garantir, com critério e tempo, a integração do maior número de atletas na equipa principal, já num contexto de exigência máxima, onde o resultado passa a ser prioritário.

        No Vitória, essa transição tem de fazer-se com base em valores bem definidos: entrega, compromisso, abnegação, porquanto a simbiose única com a bancada, em tantas vezes empurra a equipa para as vitórias.

        Trabalhar e potenciar jovens sub21 pode ser a chave não só do sucesso desportivo, mas também da sustentabilidade financeira, protegendo o clube de ataques predatórios. Hoje, o treinador não trabalha sozinho: lidera uma equipa técnica composta por preparador físico, analista de dados, nutricionista, psicólogo, médico, fisioterapeutas e adjuntos. Cabe-lhe ser o rosto, a voz de comando e o coordenador de todo este ecossistema.

        Treinar é preparar, repetir, antecipar cenários e lidar com a imprevisibilidade do jogo. Começa-se num 11x11, surge uma lesão, uma expulsão injusta, um ajuste tático forçado para 10x11 — ou, mais raramente, 11x10 — e a equipa tem de reagir de imediato. Todas estas variáveis devem ser estudadas, treinadas e interiorizadas, para que o erro seja minimizado num contexto de competição extrema.

        É neste enquadramento que surge Gil Lameiras, treinador da equipa B do Vitória. Com apenas 31 anos, tem sido um exemplo de sucesso, não apenas pelo título de vice-campeão do Campeonato de Portugal em 2023/24 e a consequente subida à Liga 3, mas sobretudo pela estratégia, pelo «trabalho de casa» bem feito e por um futebol positivo, atrativo, de posse, de passe curto e identidade coletiva.

        Depois de liderar os sub-15 em 2022/23 e os sub-17 na época seguinte, a entrega da equipa B em 2024/25 gerou dúvidas. A missão de regressar à Liga 3 era enorme e o primeiro ponto só surgiu à terceira jornada, levando alguns mais impacientes a pedir a sua cabeça. O tempo veio dar razão ao treinador.

        O percurso terminou com a vitória na Série A da Fase I, o triunfo na Fase de Apuramento de Campeão e apenas a derrota no Jamor, frente ao Lusitano Ginásio Clube, impediu o Comboio Gil Lameiras de conquistar o título nacional. Numa época em que 39 atletas vestiram a camisola do Vitória, vários saíram valorizados: Miguel Nogueira, Diogo Sousa e Noah Saviolo são exemplos claros, a par de apostas consolidadas na Liga 3 como Rodrigo Duarte, Rika Ribeiro, André Oliveira, Hugo Nunes e Ricardo Rocha. Mais recentemente, também José Ribeiro e Rodrigo Silva se afirmaram neste patamar competitivo, sem esquecer os campeões do mundo Zeega e Verdi, ambos com apenas 17 anos.

        Alcançar o apuramento para a Fase de Campeão da Liga 3 Placard seria a concretização de um sonho, sobretudo quando muitos destes atletas ainda não atingiram os 20 anos de idade.

        É imperativo valorizar estes treinadores: financeiramente, em primeiro lugar, e depois, se assim o desejarem, com maior projeção social e profissional. Há técnicos que nasceram para formar, que encontram aí a sua plenitude, mesmo sabendo que as obras-primas podem vir a atingir o estrelato pelas mãos de outros artífices.

        Yorumlar

        Yorum yapmak ister misiniz? Sadece kayıt olun!!
        Motivo:
        EHenüz yorum yapılmamış.

        Görüş