Um bailarino metido num camuflado da II Guerra Mundial. Um artista aperaltado na asfixia de um colete de forças. O génio de um pensador proibido de decidir pela própria cabeça.
Na passada semana, dias antes de mais uma derrocada do Atlético Madrid, falei com um colega espanhol sobre a situação de João Félix no clube. Fiquei preocupado.
Dizia-me ele, naquela musicalidade capaz de retirar peso ao pior dos insultos, que o problema de Félix é o problema dos adeptos colchoneros. Chama-se «indecisão ideológica».
Pretendi saber mais. «Hombre, nós sobrevivemos ao Gilismo, mas o Gilismo converteu os nossos hinchas em veteranos com stress pós-traumático. Divertidos no parque, sorridentes num jantar de amigos, entretidos a ver um filme, perante o mais leve dos ruídos atiramo-nos para o chão e acreditamos que estão a cair bombas reais na cidade.»
A forma encontrada, então, pelo Atleti para combater os traumas do Gilismo chama-se Cholismo. O Cholismo é um caos organizado, uma tática de guerrilha bem afinada e que privilegia o enclausuramento estratégico à exposição esteta e ao risco desnutrido.
No papel, nada a opor. Foi este o regime responsável por devolver o Atlético aos palcos maiores, às produções triunfantes e aos títulos: dois campeonatos de Espanha, duas Ligas Europa, duas Supertaças Europeias, uma Taça do Rei e uma Supertaça de Espanha.
E João Félix? «Bem, chico, o Cholo desistiu dele e não tem coragem de o assumir. Nem em público, nem em privado.»
Simeone não me parece parvo nenhum e só um parvo desistiria de um talento assim. Mas é evidente que há problemas graves. O organismo embrutecido da equipa é incapaz de assimilar a qualidade de Félix, a osmose é tecnicamente inconciliável.
João Félix é um craque. Vi-o pela primeira vez nos sub19 do Benfica e percebi – qualquer um o faria – que era distinto. O porte, a forma de correr, de tocar a bola. Subiu aos seniores, capitalizou o hype de seis meses maravilhosos e rumou a Madrid sentado num bilhete dourado avaliado em 126 milhões de euros.
Dois anos e meio, algumas lesões, demasiado tempo no banco de suplentes e um par de bons jogos depois, parece-me seguro afirmar que a relação entre Félix e o Cholismo não vai acabar bem. É uma pena.
Aceito a discussão sobre a atribuição de responsabilidades. Treinador e atleta não estão isentos, cada um no seu ofício.
Já me parece menos discutível o primeiro parágrafo desta Opinião. Félix entra em campo a vestir um fato cinco números acima, as mangas a bambolearem e o casaco a tapar-lhe os joelhos. Uma vítima da indecisão ideológica, uma guerra muito própria entre os saudosos do Gilismo e os acérrimos defensores do Cholismo.
O povo deixou de pagar para ver as habilidades do génio, passou a sentar-se na bancada preparado para vê-lo a falhar. Uma e outra vez, cada vez pior.
Um Félix Fracasso.
NOTA: Félix Fracasso era o nome de uma personagem infantil dos anos 90 interpretada pelo falecido António Cordeiro, o eterno detetive Claxon. Fracasso interrompia a apresentação do concurso Vitaminas para fazer sketches humorísticos sem palavras, sempre em silêncio.