Pedro Jorge da Cunha
        Campo Pelado
        Pedro Jorge da Cunha

        Fariolilândia

        2025/08/19
        E2
        «Campo Pelado» é o espaço de opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Uma homenagem ao futebol mais puro, mais natural, onde o prazer da camaradagem é a única voz de comando. «Campo Pelado».

        A bola já não morde. Sai mansa, mansinha, um ursinho de peluche amestrado.

        Diogo Costa toca curto, o patrão Bednarek segura e olha. O radar polaco perscruta, aparelho de guerra fria, diz que é por ali e por ali o FC Porto vai.

        O que há uns meses era um caos destrambelhado, a utopia da impotência, veste agora o papel de agente fiável, sólido, de infinita confiança.

        Um agente pouco secreto, ainda por cima.

        O dragão reaprende a viver, já se lembra do que é ser feliz, percebe as mais elementares regras do jogo e aceita o bilhete para passear na Fariolilândia.

        Não é um parque de aventuras, tampouco uma fantasia de crianças. Que ninguém vá ao engano.

        Esta criação de Francesco, o treinador toscano, é um seríssimo processo de construção de uma equipa de futebol. Mas, ao mesmo tempo, um processo de prazer e bem-estar.

        Regeneração, reabilitação, recordação.

        Há paragens em várias estações e, embora a viagem ainda agora tenha arrancado, as promessas de reencontro com o paraíso são evidentes.

        É fácil falar de Victor Froholdt, o adolescente nórdico de quatro pulmões, e ainda mais simples identificar a segunda juventude de Pepê, o homem que passou da depressão ao nirvana em poucos meses.

        Um case study para o mundo da Psicologia.

        Borja Sainz, quando definir melhor as dúvidas que ele próprio cria aos oponentes, é um Derlei em potência. Havia um ninja em Norwich e só André Villas-Boas sabia.

        De Espanha, mais propriamente da Galiza, vem o talento e o sangue a ferver de Gabri Veiga. Trata a bola como poucos, bate bem cantos e livres, e é a prova evidente de que o futebol das arábias não faz bem a ninguém.

        Só aos bolsos sem fundo.

        O FC Porto é, para Veiga, o regresso ao mundo real. Sem tapetes esculpidos em mil e uma noites, diamantes à moda da Georgina e demais pedras preciosas. É o futebol dos grandes e onde os grandes querem estar: a Europa da bola civilizada.

        Por falar em civismo, o que dizer de Luuk ‘Skywalker’ de Jong? O holandês – posso escrever holandês só desta vez? – está do lado certo da Força. Comunica, apoia, abraça, lidera, e tudo isto debaixo de um penteado impecável.

        Os dragões gritavam por gente assim, da estirpe de Luuk e Bednarek. Não serão sempre os melhores em campo, não terão músculos para jogar dez meses ininterruptamente, mas a naturalidade com que chegam e se impõem perante os colegas é a prova suprema da sua relevância.

        Fariolilândia, pois. Os processos são mais simples, mais claros, cada uma das unidades percebe perfeitamente o que fazer e quando fazê-lo. Um 4x3x3 de horizontes bem amplos.

        Vítor Bruno foi bem intencionado e insuficiente; Martín Anselmi foi um final incompreensível e atabalhoado de um filme demasiado longo; Francesco Farioli promete ser o Cinema Paraíso dos portistas, com a devida vénia ao compatriota Tornatore.

        A ilusão no reino azul e branco é tão intensa que até Zaidu e Nehuen Pérez, os patinhos feios prediletos do Dragão, sacodem as críticas para longe, como fossem pó antigo e bafiento.

        Os dois primeiros meses de Farioli no FC Porto são um trabalho de autor. Chegar, tomar decisões difíceis, mudar radicalmente as condições e a atmosfera de trabalho, escrever num papel qual o ponto de partida e riscar uma linha reta em direção ao ponto de chegada.

        Essa é ainda a forma mais rápida de chegar ao sucesso. Sem desvios inúteis.

        Farioli parece saber isso como ninguém.

        PS 1: Rodrigo Mora. Falemos do prodígio adolescente. Se eu pudesse, faria com Mora o que Quinito quis fazer um dia com Pedro Barbosa. Levava o miúdo para o meu jardim e passava a tarde a aplaudir as maravilhas que só ele sabe fazer. O mundo real – outra vez esta profana inquisição –, porém, não é assim.

        Rodrigo foi a única boa notícia do FC Porto em 24/25, será um futebolista abençoado se assim o quiser, mas por agora tem de ser bem aconselhado e aproveitar os minutos que passa em campo. Pacientemente. A Fariolilândia não desaproveitará, certamente, o seu talento único. Falta saber quando e em que funções.

        PS 2: dos reforços não falei ainda de Alberto Costa e Dominik Prpic. Serei breve: o primeiro, se refinar a receção, será a médio prazo o dono do lado direito da Seleção Nacional; o segundo, elegante e canhoto, parece ter os requisitos necessários para ser regularmente útil. A rever. 

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