António Costa
        António Costa
        O sítio dos Gverreiros
        António Costa

        De herói a vilão

        2026/05/10
        E1
        "O sítio dos Gverreiros” é uma coluna de opinião de assuntos relativos ao SC Braga, na perspetiva de um olhar de adepto braguista, com o sentido crítico necessário, em busca de uma verdade externa ao sistema.

        A vida é feita de altos e baixos, em que as alegrias e as tristezas parecem caminhar (quase) de mãos dadas, tal é a sua proximidade. Existem inúmeras situações antagónicas cuja fronteira é demasiado ténue. O sucesso e o insucesso são um exemplo paradigmático dessa realidade.

        A diferença entre ganhar ou perder também é, muitas vezes, separada por uma linha praticamente invisível. A um nível mais dramático, percebemos que a vida e a morte partilham igualmente essa separação quase impercetível, o que nos leva a refletir sobre a forma como a nossa existência é, tantas vezes, injusta e não corresponde ao que fazemos de bem, ou de mal, ao longo do nosso percurso. É essa injustiça que provoca uma dor imensa nas almas que dela são vítimas, levando-nos a questionar tantas e tantas coisas. Este parágrafo, escrito com muito sentimento, tem destinatários que o entenderão de forma clara. Ainda assim, mesmo nesses momentos, a vida tem de seguir em frente.

        O SC Braga viajou até Friburgo, na Alemanha, para dar continuidade à campanha de excelência que vinha a realizar. Em teoria, aquela velha máxima de que «no futebol são onze contra onze e, no fim, ganham os alemães» foi contrariada nesta meia-final, porque, em igualdade numérica, os bracarenses foram sempre superiores aos alemães em campo. Contudo, o futebol tem um lado aleatório que o torna, por vezes, imprevisível - e talvez seja por isso que desperta tantas paixões.

        Foi precisamente essa aleatoriedade que colocou o SC Braga a jogar praticamente todo o encontro com dez elementos contra onze alemães, após a expulsão ingénua e demasiado prematura de Mario Dorgeles, que passou de herói - ao marcar o golo do triunfo, no último minuto da primeira mão, levando à loucura total as bancadas da Pedreira - a vilão, ao ser expulso com escassos seis minutos decorridos no duelo de Friburgo.

        O encontro começou a definir-se num lance fortuito, de puro azar bracarense, já que o golo inaugural aconteceu sem intenção voluntária de qualquer jogador. Percebeu-se, nesse momento, após duas incidências negativas para o lado português, que os deuses do futebol estavam desalinhados e dispostos a dar uma ajuda aos alemães, castigando de forma injusta os portugueses que viajaram desde Braga. O decurso da partida ofereceu uma vantagem de dois golos aos germânicos ao intervalo, porque a sorte voltou a ser madrasta quando o poste evitou o golo que igualaria a eliminatória. Esse momento confirmou que o desalinhamento atrás referido era real.

        Na segunda parte, os alemães chegariam ao terceiro golo, com a equipa de Carlos Vicens a reduzir a desvantagem ainda com minutos suficientes para lançar a dúvida no estádio e devolver a esperança às gentes braguistas, que nunca deixaram de apoiar a equipa, amputada de um elemento desde o dealbar do encontro. O segundo golo bracarense, contudo, não chegou, porque o desalinhamento «divino» se manteve quando surgiu a oportunidade de levar a decisão para o prolongamento - um cenário que teria trazido alguma justiça à Legião do Minho. Mas, como já referi, a vida é muitas vezes injusta.

        O desfecho do encontro apurou os alemães para a final de Istambul, onde deveria estar o SC Braga se houvesse justiça e se o futebol fosse jogado (sempre) onze contra onze. Nesse contexto, os arsenalistas foram sempre melhores e, mesmo em inferioridade numérica, lutaram até à exaustão, ainda que sem conseguirem evitar uma eliminação cruel, que levou às lágrimas a equipa bracarense no final do encontro. Jogadores e equipa técnica choraram coletivamente perante os aplausos dos adeptos.

        O caminho tinha sido feito em conjunto e a tristeza da eliminação foi geral, não passando ao lado de ninguém. Afinal, Istambul estava ali tão perto e ficou tão distante por um incidente infeliz. Uma palavra para Mario Dorgeles: que saiba retirar lições deste episódio, seja capaz de subir ao patamar que dele se espera e possa, ainda, ser muito feliz em Braga.

        O SC Braga voltou a contar com um apoio incrível em Friburgo, tal como já acontecera, por exemplo, em Sevilha. Em voos charter ou em outras ligações aéreas que implicaram deslocações infindáveis de comboio e/ou autocarro, foram muitos os que viajaram desde Portugal para acompanhar a equipa. Também os emigrantes marcaram presença, recorrendo aos mais diversos meios, porque «tua gente não te troca por nada; ninguém fica em casa; quando joga o Braga».

        No final do encontro, foram arrepiantes os momentos de ovação coletiva à equipa de Carlos Vicens pela excelente campanha europeia realizada em silêncio, mesmo com a final a escapar após uma derrota em que dez Gverreiros no relvado, apoiados pelos das bancadas, lutaram até ao fim por um desfecho diferente. O técnico bracarense foi o primeiro a dar a cara e ganhou, com isso, ainda mais a admiração e o apoio da Legião, reforçando a certeza de que o futuro será mais sorridente.

        O projeto que se desenvolve na Pedreira só pode seguir o caminho traçado, perseguindo um sonho ainda maior - um sonho que as gentes braguistas já fizeram por merecer.

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