Diogo Leite Ribeiro
        Diogo Leite Ribeiro
        Do Castelo à Conquista
        Diogo Leite Ribeiro

        007 Ordem para matar

        2025/12/26
        E6
        “Do Castelo à Conquista” liga a essência histórica do Vitória ao espírito combativo da cidade que o viu nascer – Guimarães. Esta coluna olha para o Vitória como expressão da cidade/região que nasceu para vencer. Com análise, emoção e ambição, exploram-se os desafios que se levantam ao Rei no seu permanente caminho para novas CONQUISTAS.

        Se em 1963 o título original “From Russia with Love” levou Sean Connery a disparar para matar, nestas últimas semanas, não tivesse eu feito o “juramento de Dom Afonso Henriques” e a tentação seria a mesma: disparar — metaforicamente, claro — sobre o futebol português.

        O retrato é deprimente e repetido até à exaustão. Jogadores simuladores de dor, que berram como cachalotes ou que, fora da área de jogo, se atiram para dentro do relvado na ânsia de encontrar o brinco de Vítor Baptista perdido em 1978. Jogadores caridosos, incapazes de reparar num sem-abrigo deitado na rua, mas prontíssimos a chamarem o INEM sempre que um colega fica estendido no chão. Árbitros complacentes, que precisam de constantes pausas para recuperar o fôlego e, aparentemente, da coragem. Treinadores desonestos, que pateticamente garantem não terem visto aquilo o que todos os viram a ver.

        Há ainda adeptos que preferem insultar a apoiar, técnicos e adjuntos que, da berma do relvado, se dedicam quase exclusivamente a semear confusão e anarquia. Dirigentes com agenda própria, sem habilitação académica ou profissional, sem visão estratégica, sem capacidade de gestão de pessoas ou recursos, mas rápidos a tomar decisões movidas apenas por interesses pessoais e financeiros.

        E, no topo de tudo isto, entidades como a FPF, a LIGA PORTUGAL, a APAF ou a SPORTTV, que parecem ter perdido qualquer ligação à essência do jogo. Mantêm apenas a aparência de uma competição imprevisível, quando há muito percebemos que a fronteira da incompetência foi ultrapassada. Resta, então, o campo minado da corrupção como explicação possível para aquilo que ninguém consegue explicar — apesar de muitos continuarem a pagar a fazedores de opinião, na derradeira tentativa de toldar mentes mais distraídas.

        Se o objetivo é matar o futebol, então estão TODOS no bom caminho.

        Mas depois de subir o Monte Latito e já no Castelo do Rei — com autorização do seu Diretor Milton Pacheco — assumi o Compromisso como colunista do ZEROZERO e fiz o “Juramento de Dom Afonso Henriques”, um compromisso que todos, sem exceção, deviam assumir

        “Prometo solenemente não fazer parte desta armada que pretende matar o futebol português."

        E é exatamente por este juramento que com clareza não se pode ignorar que: quem hoje manda no futebol não são os treinadores, nem os jogadores em campo, mas sim o dinheiro. Aqueles que circulam à volta da bola sem nunca lhe dar um chuto, ditando regras, controlando transferências, inflacionando salários e transformando a paixão dos adeptos em meros números de balanço.

        Não é apenas uma sensação — é um problema reconhecido ao mais alto nível. Patricio Varela, presidente dos Agentes na FIFA, e Jan Kleiner, diretor do Regulador do Futebol, confirmaram-no no mais recente Relatório Anual dos Agentes de Futebol: a FIFA assume o compromisso de promover profissionalismo e transparência no sistema global de transferências. Mas, enquanto o discurso oficial se mantém, na prática o futebol continua refém de interesses financeiros, com regras que favorecem os poderosos e ignoram por completo a essência do jogo.

        O juramento não é apenas simbólico. É um alerta: ou se respeita os Presidentes das Instituições que devem defender o futebol como espetáculo e paixão de milhões, ou continuaremos a assistir a um jogo em que a bola é apenas pretexto, e o que rola debaixo dela é corrupção, dinheiro e poder.

        Num relatório que excluiu as transferências nacionais, as renovações e os prémios a agentes, em 2025, os clubes pagaram mais de 1.200 M€ a agentes de futebol. Batendo o record anual de forma estrondosa. Pelo que este valor, se consideradas todas as transferências, principalmente, em Inglaterra, claramente peca por defeito.

        O aumento anual das comissões foi superior a 90%, de acordo com os valores que os clubes declararam no TMS (Transfer Matching System), tornando claro que os agentes continuam a dominar o futebol global, muitas vezes acima de jogadores, clubes e até da própria essência do jogo.

        A nova realidade é clara: o agente passou a representar predominantemente o clube comprador, em vez de atuar maioritariamente em nome do clube vendedor. Ou seja, cada vez mais o poder se concentra nas mãos da direção desportiva do clube — e, de forma incompreensível, o comprador sente a necessidade de pagar uma comissão a um agente para adquirir os direitos económicos de um atleta que, supostamente, já foi observado, analisado e selecionado pela própria estrutura desportiva do clube, e posteriormente validado pelo departamento financeiro.

        Se são os agentes que definem e representam o clube comprador, terão sido os departamentos de scouting objeto de lay-off, sem prévio aviso?

        Analisando as cerca de 3 mil transferências internacionais realizadas em 2025, o clube comprador esteve representado por um agente em 78% dos negócios, sem que o clube vendedor tivesse de pagar qualquer comissão. Contudo em 11% das transferências, ambos os clubes estiveram representados por agentes e nas restantes o clube vendedor contratou um agente. Estes números evidenciam como o sistema atual deslocou o poder e a influência para os intermediários, muitas vezes acima das próprias decisões estratégicas dos clubes.

        Em todo o mundo existem 10.975 agentes licenciados pela FIFA, mas apenas 1.559 concretizaram pelo menos uma transferência internacional em 2025. E a situação mais incrível: houve 55 transferências internacionais em que um único agente representou simultaneamente os interesses do clube vendedor, do clube comprador e do jogador. Sim, leu bem: uma única pessoa, num mesmo negócio, a negociar o máximo que o vendedor queria receber, o mínimo que o comprador queria pagar e, ainda, o salário e prémio do jogador. Parece confuso? É mais do que confuso: é uma incompatibilidade ética flagrante.

        Embora a intervenção de agentes “triplos” seja residual, quase um terço das transferências internacionais envolveu agentes “duplos”. Na esmagadora maioria (88,5%), representavam o clube comprador e o jogador; em 7%, o clube vendedor e o jogador; e em 4,5%, os dois clubes. Estes números explicam facilmente comissões milionárias de que é exemplo,  2,5 milhões de euros declarados numa só transferência, contudo bem longe do record que continua a ser de 40 milhões de euros! E se em média, os agentes cobram entre 7,5% e 8,5% do valor do negócio – conforme estão da parte compradora ou vendedora, a verdade é que houve pelo menos 664 transferências em que foi paga uma comissão de valor superior a 1 milhão de euros. E neste mercado supostamente regulado, mas onde o produto negociado não tem preço pré-definido, quanto mais alto o valor do negócio, maior a presença de agentes.

        E Inglaterra é Rei, onde as transferências acima de 4,5 milhões de euros se concentram com 327 milhões pagos em comissões — mais do que Alemanha e Itália somadas. Portugal, por sua vez, aparece em quinto lugar, com 76 milhões de euros, atrás de Espanha (94 milhões de euros, mas à frente de França ( com 69 milhões de euros). Sendo que a comparação do mercado de comissões entre Portugal e Holanda (Países Baixos), país de dimensão semelhante e nível competitivo similar (PSV, Ajaz e Feyenoord), é absurda: os neerlandeses gastam apenas 24 milhões em agentes, um terço do que pagaram os clubes portugueses!

        Em Portugal, os clubes pagam muito mais aos agentes nas compras do que nas vendas: 44 milhões contra 32 milhões. Ou seja, o mito de que Portugal é um país que vende muito e bem, deve ser acrescentado por uma verdade menos simpática: somos um país que compra muito… e paga muito bem aos agentes. Nas transferências de e para Portugal, um terço das “importações” envolve agentes, representando o dobro das exportações com agente. No campo das vendas internacionais, a Sérvia surge como novo mercado para os intermediários: os clubes vendedores sérvios bateram recordes, entregando quase 9 milhões em comissões.

        Perante estes números, torna-se impossível sustentar a narrativa de que o futebol está a ser gerido em nome da transparência, da meritocracia ou da competitividade. O jogo deixou de ser decidido apenas dentro de campo. Hoje, decide-se nos gabinetes, nos contratos paralelos e nas comissões.

        O futebol não morre por acaso. Morre quando o dinheiro passa a mandar mais do que o jogo. E, a continuar assim, a ordem para matar o futebol português já foi dada — resta saber quem terá coragem de a contrariar.

        SETE, seis, cinco, quatro, três dois, um, ZERO, ZERO!

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