António Costa
        António Costa
        O sítio dos Gverreiros
        António Costa

        A imprudência

        2026/01/03
        E0
        "O sítio dos Gverreiros” é uma coluna de opinião de assuntos relativos ao SC Braga, na perspetiva de um olhar de adepto braguista, com o sentido crítico necessário, em busca de uma verdade externa ao sistema.

        O último artigo que escrevi aqui colocava no ar a possibilidade de o SC Braga alinhar com a sua equipa B na receção ao SL Benfica, como forma simbólica de expressar a revolta da maioria dos clubes perante os prejuízos arbitrais que lhes são sistematicamente impostos, em benefício de uma minoria de apenas três autoproclamados grandes. Os incidentes do encontro, que hoje detalharei um pouco mais do que o habitual, confirmaram que essa proposta não era, de todo, descabida.

        A Pedreira engalanou-se com bancadas repletas de braguismo puro para um clássico do futebol português, num jogo em que o SC Braga recebeu o SL Benfica, agora sob o comando de José Mourinho, técnico vindo de vários abandonos consecutivos de projetos desportivos em diferentes
        pontos do globo. Mourinho foi, em tempos, o melhor de todos, mas caiu em desuso e não se atualizou, permitindo a ultrapassagem por vários companheiros de profissão. Ainda assim, a sua organização, experiência e estatuto fazem dele um valor acrescentado que importa sublinhar.

        A arbitragem ficou a cargo de João Gonçalves, com Tiago Martins no VAR. Ora, atendendo aos acontecimentos da última final da Taça de Portugal, entre SL Benfica e Sporting CP, a designação deste VAR foi uma imprudência, dado que permanecem bem vivas na memória coletiva as circunstâncias em que as águias perderam uma Taça de Portugal que, para muitos, deveriam ter conquistado. Importa ressalvar que, na opinião de vários especialistas, Tiago Martins é o melhor VAR em atividade, ainda que o contexto específico envolvendo o Benfica condicionasse, desde logo, a sua atuação, como viria a verificar-se.

        O duelo teve duas partes muito distintas, com o SC Braga a mandar na primeira e o SL Benfica, em busca do prejuízo, a revelar-se mais competente e fresco na segunda. O primeiro erro grave da arbitragem surgiu cedo, na sequência de um canto a favor dos bracarenses, que resultou em quatro jogadores seus caídos no relvado. Descontando o resto, em relação a Pau Víctor a decisão do VAR de não intervir é inaceitável, pois foi clara e óbvia a falta merecedora de grande penalidade que ficou por assinalar. O avançado espanhol afirmou, no final do encontro, que, se dissesse tudo o que lhe ia na alma, seria castigado, pelo que foi frio e lúcido ao evitar o caminho da crítica direta à arbitragem.

        O SL Benfica chegaria à vantagem no primeiro remate efetuado, num lance em que João Moutinho surge no relvado após um empurrão pelas costas. Questão de intensidade, dirão uns, e falta efetiva, dirão outros. Creio que, se fosse na área contrária, o golo seria anulado, tal como aconteceu com o de Ricardo Horta, num lance em que o seu pé se eleva e a cabeça de Otamendi se baixa em demasia. Até ao intervalo, os arsenalistas deram a volta ao resultado, traduzindo assim a sua superioridade.

        O segundo tempo apresentou um SL Benfica mais ativo, à procura do caminho que lhe permitisse recuperar a vantagem perdida. E teve um sucesso parcial bem cedo, num lance em que João Gonçalves concedeu uma vantagem que nunca chegou a existir após uma falta clara sobre Ricardo Horta. O golo acabaria por valer, uma vez que Tiago Martins, mais uma vez, não teve coragem de intervir, e o árbitro demonstrou sempre receio de prejudicar a equipa lisboeta. Perto do final da partida, ainda houve tempo para a expulsão de Ricardo Horta, a primeira da sua carreira em Braga, resultante de dois cartões amarelinhos que, juntos, davam um “amarelo maior”.

        O encontro terminaria empatado para a maioria, ainda que Mourinho acabasse o jogo a ganhar, antes de despertar para a realidade de ver o grupo que comanda praticamente arredado do título depois deste empate. Nota para quatro golos validados, alguns deles de dúvida relevante, e outros tantos anulados, parecendo todos com decisões acertadas.

        Após o encontro, os dois presidentes falaram à imprensa, com Rui Costa a ter pouco a que se agarrar e António Salvador a enumerar um conjunto de erros que prejudicaram objetivamente o SC Braga. O presidente benfiquista, aparentemente, tinha razão, pois quem permite dois golos daquela forma poderia ter validado um terceiro, uma vez que os maus hábitos também se enraízam. António Salvador falou bem, mas as palavras vindas de qualquer dirigente da Luz são sempre mais ampliadas.

        A nível geral, os comunicados e a atenção da comunicação social, que atuam quase sempre em prol dos mesmos três clubes, dificultam ainda mais o trabalho de um árbitro, já de si extremamente complexo. Os árbitros precisam de paz e independência, para o desempenho da sua função.

        O SC Braga perdeu, com este empate e com a dolorosa derrota consentida no Estoril, uma dupla oportunidade de recuperar terreno na luta pelo pódio.

        Uma nota final para endereçar os meus votos de Bom Ano Novo de 2026, tendo como destinatários especiais os membros da Legião do Minho e o SC Braga, o clube do meu coração.

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